De Santa Maria para o mundo: o centro de reabilitação que expandiu fronteiras

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Criado devido à tragédia na boate Kiss, o Centro Integrado de Atendimento às Vítimas de Acidentes (Ciava), no Hospital Universitário de Santa Maria, ajudou nos incêndios de Portugal e no ataque à creche Gente Inocente, em Janaúba (MG), e recebeu pesquisador francês

Criado em fevereiro de 2013, dias após a tragédia na boate Kiss, o Centro Integrado de Atendimento às Vítimas de Acidentes (Ciava), no Hospital Universitário de Santa Maria (Husm), contabilizou 17,8 mil atendimentos até o fim do ano passado. Embora a maior parte das consultas tenha envolvido sobreviventes do desastre (cerca de 600 pessoas ainda têm acompanhamento regular), o serviço vem expandindo fronteiras: a cada mês, de três a quatro novos enfermos, em sua maioria queimados, buscam auxílio no local, dedicado 100% ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Vinte e três pessoas atuam no órgão, incluindo médicos de diferentes especialidades, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais e psicólogos, entre outros profissionais. O diferencial é a forma de trabalho da equipe, que começou a se delinear nas primeiras 48 horas após o incêndio.

— Naquele momento, nos demos conta de que o desastre não acabava ali. Não terminava com a alta dos pacientes. Tínhamos de criar um centro que desse continuidade ao atendimento e atuasse de forma integrada, voltado à reabilitação — conta a fisioterapeuta Marisa Bastos Pereira, 56 anos, coordenadora do Ciava.

O principal objetivo do centro é fazer com que os sobreviventes possam voltar a ter vida normal. Para isso, os casos são discutidos em conjunto e qualquer um dos integrantes do grupo pode fazer encaminhamentos. Por exemplo: se o psicólogo percebe que o paciente tem dificuldades de deglutição (muitos sofreram queimaduras internas e ainda têm sequelas), ele próprio avisa o fonoaudiólogo para prosseguir o atendimento.

Há, também, um esforço para que pessoas de outras regiões possam ter várias consultas agendadas em um único dia. Outra preocupação da equipe é com a “busca ativa”. Cerca de 450 sobreviventes que, em algum momento, deixaram de ir ao Ciava já foram procurados.

— Temos o dever de saber como eles estão. Fazemos contato por telefone. Se notamos a necessidade de reavaliação, pedimos que voltem— explica Marisa.

Por fazer parte de uma instituição de ensino, o Ciava é um centro de formação e tem inspirado trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses. Há inclusive um grupo de pesquisas inscrito no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Não por menos, o serviço tem chamado a atenção de estudiosos. Um deles foi o diretor-adjunto do Hospital de Le Havre, na França, Célestin Durand, que passou dois meses no local, acompanhando o trabalho.

— Não sou um expert no tema, mas acho que, no mundo, o Ciava representa um modelo de atendimento em situações excepcionais que não tinha sido desenvolvido ainda — observa Durand (leia a entrevista abaixo).

 

A singularidade do projeto também chegou até a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas (Apfisio), que, em meados de 2017, buscou orientações frente ao caos provocado pelo incêndio florestal de Pedrógão Grande, em Portugal. Os brasileiros ajudaram na elaboração do plano de intervenção que seria adotado por voluntários.

— Seremos para sempre gratos pelo grande gesto do Ciava, que naqueles dias fez desaparecer o oceano que separa Portugal do Brasil. A experiência e o conhecimento da equipe foi determinante. Todos são merecedores do nosso mais profundo respeito e admiração — diz o presidente do Conselho Diretivo Nacional da Apfisio, Emanuel Vital.

Nos últimos cinco anos, o  Ciava registrou avanços na reabilitação de queimados que hoje beneficiam pessoas sem nenhuma ligação com a catástrofe. Um deles começou a dar resultado em 2013.

Naquele ano, a fisioterapeuta Anna Ourique decidiu utilizar nos pacientes da Kiss uma técnica da medicina chinesa que, até então, era usada para tratar contraturas e dor muscular: a ventosaterapia. O método passou a ser aplicado sobre cicatrizes que impediam movimentos. Funcionou.

— O uso das ventosas melhora a circulação e dá mais elasticidade à pele. Oito sobreviventes da boate e outros cinco pacientes que tinham indicação de cirurgia reparadora não precisaram passar pelo procedimento e hoje se movimentam normalmente — afirma Anna.

A metodologia mudou a vida da professora Lis Menezes, 41 anos, que é de Santa Maria e vive em São Paulo. Em abril de 2017, Lis e o marido, o taxista André Luiz de Holanda, 40 anos, foram acometidos por um incêndio em casa. Ambos receberam atendimento no Hospital das Clínicas, na capital paulista, e, em julho do ano passado, decidiram recorrer ao Ciava. Holanda corria o risco de ter as pernas amputadas e conseguiu reverter o quadro. Liz teve 30% do corpo queimado, sentia dor e não conseguia mexer os braços. Hoje, vive uma vida normal.

— Viemos para Santa Maria para continuar o tratamento. Eu tinha ouvido falar que a equipe era boa e que tinha se especializado com a Kiss. Em cinco sessões, já notei a diferença —  conta a professora.

Apoio no massacre de Janaúba

Quando as notícias sobre o ataque incendiário à creche Gente Inocente, em Janaúba (MG), ganharam o país, em outubro de 2017, a equipe do Ciava recebeu um pedido de socorro de Minas. Treze pessoas morreram na tragédia, incluindo crianças, professoras e o autor do incêndio, e havia mais de 40 feridos.

— Prontamente, quando passamos pelo período mais difícil, eles estavam aqui, com todo aquele conhecimento. Queríamos ouvir o que tinham a dizer — relembra a coordenadora da Atenção Primária do município, Marília Pereira de Mendonça, 30 anos.

O grupo que foi a Janaúba contou com duas enfermeiras, duas fisioterapeutas e um psiquiatra. A passagem pela cidade durou três dias, mas os contatos permanecem até hoje. Segundo Marília, o reforço de Santa Maria “fez a diferença”.

Muitas crianças não tinham sido levadas ao hospital pelos pais. Quando souberam disso, os integrantes do Ciava relataram que, no caso da Kiss, sobreviventes que haviam inalado fumaça acabaram voltando dias depois, com insuficiência respiratória.

— Por orientação deles, fomos atrás das crianças. Isso salvou vidas — diz Marília.

O Ciava também ajudou a orientar a assistência às vítimas e a fazer um plano de ação de longo prazo.

— Chegamos lá e deparamos com um sistema melhor do que o nosso, mas eles não estavam sabendo fazer as conexões — resume a enfermeira Soeli Guerra, 55 anos.

A atuação incluiu uma série de palestras sobre lesão inalatória aguda e lesões de pele e queimaduras.

— Foi uma experiência desafiadora, ainda mais por se tratar de crianças. Como aqui, as pessoas não tinham noção do que viria pela frente — diz a fisioterapeuta Marisa Bastos Pereira.

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Fonte: GaúchaZH